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Gerado em abuso, jogador Marlone e irmão gêmeo revelam drama familiar

11/01/2017 10h40 | Atualizado em: 12/01/2017 11h46
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Divulgação
Por um gol marcado no jogo Corinthians x Cobresal pela Taça Libertadores da América de 2016, Marlone concorreu com atletas que disputam nada menos que o título de melhor jogador de futebol do mundo.

Os gêmeos Marlone e Marlos vieram à luz em abril de 1992, quando sua mãe, Deusa, tinha apenas 13 anos de idade, na remota região do norte do Tocantins cujo formato no mapa lhe valeu o apelido de “Bico do Papagaio”.

O próprio Marlos, que hoje prefere ser chamado de Marlon, resume a continuação da cena, quando, ainda na maternidade da pequena Augustinópolis, Deusa resolveu entregar os dois bebês a quem pudesse adotá-los:

“Uma pessoa de 13 anos não entende as coisas direito. Ainda mais no interior, do jeito que as coisas costumam ser, infelizmente. A gravidez veio após abuso sexual do meu pai biológico. Quase morremos nós três na hora do parto. Minha mãe teve hemorragia, foi uma gravidez muito difícil por tudo que ela passou, né? Sofremos um bocado, mas, graças a Deus, estamos aqui para contar a história”.

Seu irmão Marlone acrescentou mais informações dolorosas ao relato durante uma entrevista de 2015 à rede ESPN:

“Ela não sentia aquele desejo de ser mãe, até pela forma como foi. Tem trauma até hoje… Ela não gosta de ver nem eu e nem Marlon… De repente, até com medo de o amor voltar… Ela sempre mantém distância“.

Naqueles dias dramáticos em Augustinópolis, Marlone não tardou a ser adotado pelo casal Jaldo e Eunice. Ainda é Marlon quem conta: “Ele nasceu pesando 2,3kg. Eu, 1,7kg. Eles viram o bebezinho mais gordinho e escolheram ele”.

Enquanto Marlone era levado ao novo lar, ali mesmo, em Augustinópolis, Marlon acabou ficando com a família biológica para ser criado pelos avós – e se mudou com eles para o interior do Piauí. Com o passar do tempo, os irmãozinhos gêmeos ficaram sabendo da existência um do outro, mas passaram todo o resto da infância sem jamais voltarem a se ver.

A renda fixa do pai adotivo, servidor público, permitiu que Marlone entrasse numa escolinha de futebol. Já Marlon tinha de se contentar com as peladas nas várzeas do Piauí e, anos depois, observa: “Ninguém da família joga futebol. Nem nosso pai biológio, nem nosso avô, que eu chamo de pai. Parece que está mesmo no sangue meu e de Marlone”.

O acidentado caminho dos irmãos só começou a rumar para o reencontro em 2004, durante uma breve visita que Marlon fez a uma tia em Augustinópolis (aliás, por falar em rumos e caminhos, essa tia era irmã de Deusa e tinha se casado com ninguém menos que o pai biológico dos gêmeos, aquele mesmo que teria abusado de Deusa e dado início a tantos desencontros).

Foi em 2004 que um amigo de Marlone viu, num ponto de ônibus lá de Augustinópolis, o menino de pele clara e cabelos loiros que esperava. E ficou de boca aberta: Marlone sempre falava de um tal gêmeo que morava longe, mas ninguém nunca tinha visto esse irmão “imaginário” e aquela história já tinha virado motivo de chacota. E foi lá mesmo, naquele ponto de ônibus, que Marlon e Marlone se abraçaram chorando e rindo pela primeira vez desde que a vida os separara na maternidade, já se iam longos e dolorosos doze anos!

Era feriado de Semana Santa. Marlon desistiu de visitar a tia. Ficou aqueles dias na casa dos pais adotivos do seu irmão. E queria ficar de vez, com o consentimento das duas famílias. Só que, antes do almoço no domingo de Páscoa, a mãe adotiva de Marlone, Eunice, fez um discurso no qual mencionava a família de Marlon e…

“Rapaz, nessa hora, quando citaram o nome da minha avó no discurso do almoço, eu desabei de chorar e falei que queria voltar para o Piauí. Foi triste demais. Eu podia ter ficado, mas também não podia ter deixado minha avó lá no Piaui”, relembra o próprio Marlon.

E os caminhos dos irmãos se separaram mais uma vez.

O menino do Piauí só voltaria a saber do irmão quatro anos depois, quando o menino do Tocantins já estava no Rio de Janeiro e tinha se tornado jogador do Vasco. A notícia surpreendente se transformou logo em decisão de vida para Marlon também, que, de novo, aguentando as saudades, tomou a estrada e voltou para Augustinópolis:

“Passei um ano e meio treinando fundamentos, porque eu não tinha a mesma base que meu irmão. E aos 18 anos fui para o Rio morar com ele”.

Marlon passou pela base do Olaria e depois defendeu o Madureira. Em Minas, jogou no Boa Esporte e depois se transferiu para o Gama, no Distrito Federal, como uma das principais contratações do clube. Conforme um estudo da Universidade de Minnesota que demonstrou que gêmeos idênticos têm o mesmo potencial e inteligência, ele pode muito bem chegar, apesar do seu percurso mais acidentado, aonde o irmão chegou: Marlone foi jogador do Vasco, do Cruzeiro, do Fluminense, do Sport e do Corinthians e chegou a ser um dos 10 indicados ao Prêmio Puskás, da FIFA, que elege o gol mais bonito do ano. Por um gol marcado no jogo Corinthians x Cobresal pela Taça Libertadores da América de 2016, Marlone concorreu com atletas que disputam nada menos que o título de melhor jogador de futebol do mundo: Neymar e Messi.

Quem acabou levando o prêmio, no entanto, foi o malaio Mohd Faiz Subri, que atua no Penang FA. Em fevereiro, durante o Campeonato Malaio, Mohd cobrou uma falta que, com muito efeito, terminou no ângulo, deixando o goleiro do adversário Pahang sem conseguir fazer nada.

Não foi desta vez. Mas o caminho de Marlone e Marlon não é de se deixar travar por qualquer impedimento. Eles já estão prontos para a próxima conquista, unidos como irmãos e como amigos que já nasceram derrotando o impossível.



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