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Especialistas constatam alta letalidade de crianças internadas com Covid-19 no Brasil

01 setembro 2020 - 20h33Por Agência Câmara de Notícias

Estudos apresentados à Comissão Externa da Câmara de enfrentamento à Covid-19 mostram letalidade em torno de 10% para as pessoas de 0 a 19 anos de idade com diagnóstico confirmado da doença. O médico intensivista Arnaldo Prata chegou a esse índice ao dividir os 759 óbitos pelos 7.436 pacientes internados dessa faixa etária até 22 de agosto, quando o país registrava um total de mais de 111 mil mortos por Covid. Na faixa até cinco anos de idade, foram 371 mortes. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse número não chega a 100. Prata, que também é pesquisador do Instituto D’Or, apresentou um resumo dos estudos sobre crianças contaminadas com o novo coronavírus internadas nas UTIs do País. Segundo ele, a chamada síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica tem sido um dos agravantes desses óbitos.

“Entre pessoas de 0 a 19 anos de idade, menos de 1% necessita de internação hospitalar. Porém, das que internam, a mortalidade pode ser alta. A presença de comorbidades aumenta em quase seis vezes a chance de gravidade e essa doença inflamatória multissistêmica pode acontecer em torno de 10% a 15% dos casos”, explicou.

Essa síndrome associada à Covid-19, também conhecida como SIM-P, é uma doença autoimune marcada por febre persistente, cefaleia e vários problemas cardiovasculares, renais, gastrointestinais e neurológicos. O alerta internacional surgiu em maio. No início de agosto, a Sociedade Brasileira de Pediatria elaborou um manual de diagnóstico e tratamento. O Ministério da Saúde só passou a recomendar a notificação desses casos em julho. Desde então, foram oficialmente registrados 197 casos de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica associada à Covid-19 até o dia 22 de agosto. Ceará (41), Pará (24) e Rio de Janeiro (22) lideram a lista de casos, mas os especialistas afirmam que há subnotificação. O diretor do departamento de ações programáticas estratégicas do Ministério da Saúde, Antônio Braga Neto, informou que o órgão ainda está concluindo o protocolo de atendimento e pode exigir a obrigatoriedade de notificação.

“O Ministério da Saúde está monitorando os casos e tem procurado garantir os leitos hospitalares necessários. Ainda é uma doença nova e o que temos de garantir, na atenção primária, é a capilaridade das informações", disse. "Quando uma criança chega à atenção primária com histórico de febre há três dias e tem alguns dos sintomas – como náusea, cefaleia, conjuntivite, excluindo causas de sepse – e apresenta alterações laboratoriais, ela deve ser encaminhada para uma atenção especializada, pois a gente pode estar diante de um caso de inflamação multissistêmica pediátrica”.

Segundo Braga Neto, o ministério também tem procurado garantir a aquisição de imunoglobulina, que é o principal medicamento para essa síndrome, mas que se tornou escasso e caro diante do aumento da demanda mundial.

Leitos disponíveis

Vice-presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), Marcelo Brandão manifestou preocupação quanto à disponibilidade de leitos, profissionais capacitados, medicamentos e insumos para enfrentar a síndrome. Os casos mais graves, por exemplo, necessitam de oxigenação por membrana corpórea, um equipamento hoje presente em poucas UTIs pediátricas de referência. Segundo Brandão, o avanço da pandemia para o interior do país e a futura reabertura de escolas e creches também são preocupantes.

“A gente não sabe exatamente como vai ser a evolução, já que a gente está aprendendo no decorrer da pandemia. Em algum momento, haverá a abertura das escolas e o encontro das crianças outra vez, então, a gente prevê que deve ter um aumento no número de pacientes que vão internar em UTI”.

Intensivistas

Eventuais sequelas da síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica ainda estão em estudo. O debate em torno do tema foi solicitado pela bancada feminina da Câmara. A relatora da comissão externa, deputada Carmen Zanotto (Cidadania-SC),  destacou a necessidade de reforço no quadro de profissionais da medicina intensiva, que hoje conta com apenas 18.600 pessoas, incluindo médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem.

“Essa pandemia precisa deixar o legado de a gente ter mais profissionais intensivistas nas UTIs neonatais e nas UTIs pediátricas. Muitas vezes, o resultado do tratamento está diretamente ligado à equipe que faz o atendimento”.

De acordo com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, o país tem 796 UTIs neonatais e 613 UTIs pediátricas, que oferecem em torno de 13 mil leitos para crianças. No entanto, quase metade deles está concentrada na região Sudeste. Para o presidente da comissão, deputado Dr. Luiz Antônio Teixeira Jr. (PP-RJ), o cuidado precoce deve ser a base do combate a essa síndrome pediátrica.

“Essa é uma sugestão: que tenha uma urgência pediátrica qualificada para esses diagnósticos e possa fazer algum tipo de acompanhamento, seja por telemedicina ou levando a criança para lá, de forma precoce, para evitar o agravamento do caso”.

O Ministério da Saúde informou que estuda a inclusão de crianças com comorbidades na lista prioritária para a futura vacina contra a Covid-19.

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