NO TOCANTINS

Caso Ingrid expõe aumento da letalidade da violência contra mulheres

5 JAN 2026 • POR Da Redação • 12h11
Ingrid Lorane Negreiros Santos morreu a facadas - Reprodução

O assassinato de Ingrid Lorane Negreiros, de 22 anos, morta a facadas pelo marido neste sábado, 3, na região sul de Palmas, ocorre em um contexto de agravamento da violência letal contra mulheres no Tocantins. Dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública (SSP) mostram que, embora o número total de feminicídios tenha se mantido estável, a proporção de casos que resultam em morte aumentou no estado.

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Em 2024, o Tocantins registrou 78 ocorrências de feminicídio. Deste total, 13 mulheres foram mortas e 65 sobreviveram a tentativas. Já em 2025, o número geral caiu para 75 registros, mas com um dado alarmante: 18 mortes e 57 tentativas. A comparação revela cinco mortes a mais em um ano, mesmo com redução no número total de casos, indicando aumento da letalidade da violência.

AUMENTO DA LETALIDADE

A análise dos dados aponta que a violência contra mulheres no Tocantins tem se tornado mais fatal. Em 2025, menos mulheres conseguiram sobreviver às agressões em comparação ao ano anterior. O dado preocupa especialistas e reforça a leitura de que as intervenções de proteção não têm sido suficientes para impedir desfechos extremos.

O feminicídio de Ingrid Lorane se insere nesse padrão. Assim como em grande parte dos casos, o crime foi cometido por alguém com vínculo afetivo com a vítima, dentro de um contexto de violência doméstica.

VIOLÊNCIA DENTRO DE CASA E À NOITE

O ambiente doméstico segue como o principal cenário dos crimes. Em 2024, 48 feminicídios ocorreram dentro de residências; em 2025, foram 40. Apesar da redução numérica, o lar continua sendo o local mais perigoso para muitas mulheres, especialmente quando o agressor é companheiro ou ex-companheiro.

Outro padrão que se mantém é o horário. A maioria dos casos ocorre à noite. Em 2024, foram 45 registros no período noturno, contra 33 durante o dia. Em 2025, 42 ocorreram à noite e 33 durante o dia. Os fins de semana concentram os maiores números, com destaque para os sábados, quando Ingrid foi assassinada.

PALMAS LIDERA OS REGISTROS

A distribuição geográfica dos feminicídios também sofreu alterações. Em 2024, Palmas e Araguaína lideravam os registros, com oito casos cada. Em 2025, Palmas passou a ocupar isoladamente o primeiro lugar, com 11 ocorrências, seguida por Gurupi, com oito, e Tocantinópolis, com quatro.

O dado evidencia a gravidade do problema na capital, que concentra serviços públicos e canais de denúncia, mas ainda enfrenta dificuldades para prevenir crimes fatais.

CANAIS DE DENÚNCIA E PROTEÇÃO

No Tocantins, mulheres em situação de violência podem buscar atendimento na Casa da Mulher Brasileira de Palmas, que reúne, em um mesmo espaço, acolhimento, Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, Defensoria Pública, Ministério Público, Judiciário e apoio psicossocial, além de alojamento temporário em casos de risco iminente.

Para denúncias à distância, o principal canal é o Ligue 180, que funciona 24 horas por dia, inclusive por WhatsApp, orientando e encaminhando as vítimas aos serviços disponíveis. Em situações de emergência, a recomendação é acionar a Polícia Militar pelo 190.

O estado também dispõe do aplicativo Salve Mulher, vinculado à Secretaria da Segurança Pública, que permite registrar denúncias e solicitar medidas protetivas pelo celular, disponível gratuitamente para aparelhos Android.

VIOLÊNCIA ESTRUTURAL E FALHAS DO ESTADO

Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, a jornalista e pesquisadora Cynthia Mara Miranda, doutora em Ciências Sociais e professora da Universidade Federal do Tocantins (UFT), avalia a violência contra mulheres como um problema estrutural. Para ela, a maior visibilidade recente não significa necessariamente aumento repentino dos crimes.

“Eles sempre foram altos. O que aconteceu agora foi uma maior visibilidade desses casos”, afirmou. Segundo a pesquisadora, o feminicídio está ligado às desigualdades históricas. “A sociedade é extremamente machista e racista. A violência contra a mulher é consequência direta dessa desigualdade”, disse.

Cynthia também destacou o papel da violência digital na escalada das agressões. “As mulheres são as maiores vítimas de linchamento virtual. Essa perseguição online migra para o mundo real de forma muito intensa”, explicou. Sobre a atuação do poder público, foi direta: “O Estado falha na prevenção, na proteção e na responsabilização”.

HISTÓRIAS QUE SE REPETEM

No Tocantins, outros casos recentes reforçam a gravidade do cenário. Delvânia Campelo da Silva morreu após dias internada, depois de ser brutalmente atacada na zona rural de Caseara. Em Formoso do Araguaia, a jovem indígena Harenaki Javaé, de 18 anos, foi encontrada morta com sinais de violência.

Em Arraias, Aliny Pereira de Ornelas foi assassinada pelo ex-companheiro após o fim do relacionamento. Já em Figueirópolis, a técnica de enfermagem Daiany Carvalho Batista foi morta a tiros ao sair para trabalhar, em um crime com indícios de execução.

Casos diferentes, contextos distintos, mas um ponto em comum: a violência chega antes da proteção. E as respostas, muitas vezes, só vêm depois da perda irreversível.