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O papel da internet nas eleições

19 julho 2010 - 21h01
Ainda falta uma semana para o início oficial da campanha eleitoral que determinará o próximo (ou a próxima) presidente do Brasil, mas as estratégias do jogo já vêm sendo testadas. No tabuleiro virtual da internet os jogadores poderão utilizar livremente seus peões. Pela primeira vez, o Tribunal Superior Eleitoral liberou de forma ampla a propaganda política na rede, restringindo basicamente apenas a veiculação de anúncios pagos ou em sites de pessoas jurídicas e de órgãos de governos federal, estadual ou municipal.

A importância da internet no pleito deste ano é tão indiscutível que inspirou o primeiro debate político online no Brasil, marcado para 31 de agosto. O evento será transmitido por quatro portais (iG, Terra, MSN e Yahoo!). E o público também poderá interagir pelo Twitter (@debateonlinebr).

Essa interação tem sido a grande aposta dos candidatos durante a pré-campanha. No Twitter, eles mesclam promessas de governo, opiniões sobre o país e comentários cotidianos sobre o futebol, a família e os bastidores de eventos aos quais comparecem. Vale até fazer piada para estar mais próximo do eleitor. O mais popular é José Serra, com 265 mil seguidores, seguido pela candidata Dilma Rousseff, que tem pouco mais de 90 mil. Cerca de 75 mil pessoas acompanham Marina Silva na rede de microblogs.

Além de suas contas pessoais no Twitter, os candidatos tentam se espalhar na rede. Orkut, Facebook, Youtube, Flickr, blogs, sites... tudo está na lista. À frente da estratégia digital dos candidatos estão três estreantes nos bastidores da política, mas cujas vidas profissionais são completamente atreladas à cultura digital.

O jornalista Caio Túlio Costa quer aproveitar o ambiente virtual para compensar o pouco tempo do PV de Marina Silva na televisão. Já Marcelo Branco, criador do Fórum de Software Livre, quer mobilizar colaboradores para a campanha de Dilma Rousseff (PT). Sérgio Caruso, diretor de uma empresa de comunicação digital, aposta na diversidade da rede para promover José Serra, do PSDB. As peças já estão dispostas. Semana que vem, o jogo começa.
MARINA SILVA

Internet é alternativa para pouco tempo de televisão

Com pouco tempo disponível para a campanha na televisão, a candidata do PV, Marina Silva, conta com a internet para conquistar seus potenciais eleitores. A importância que este meio terá na trajetória da candidata é tanta que justifica a contratação de peso feita pelo partido: quem está à frente da campanha digital de Marina é o jornalista e consultor de novas mídias Caio Túlio Costa, cuja carreira foi marcada pelas inovações no setor de tecnologia. Na década de 80, ele foi um dos responsáveis pela informatização do jornal "Folha de S. Paulo". Alguns anos depois, em 1995, trabalhou na criação do Universo Online, o UOL, onde atuou como diretor-geral até 2002. Quatro anos depois, assumiu a presidência do Internet Group, que reunia os portais iG, iBest e BrTurbo.

- Minha relação com a internet vem de muito tempo, desde a época em que informatizei a redação da "Folha". Já usava conexões online desde 1989, com a Ciranda (o Projeto Ciranda, da Embratel, que foi o precursor da internet no Brasil) - conta o jornalista.

E Marina Silva nem precisou ir atrás dele. Sem qualquer experiência prévia nos bastidores de uma campanha eleitoral, Caio Túlio Costa resolveu oferecer seus serviços ao Partido Verde por ideologia e por considerar a candidata uma exceção no ambiente político definido por ele como "tradicional":

- Eu não trabalho para políticos, nunca fiz campanha e nem vou trabalhar dentro de uma política tradicional. Me interessei, neste caso, porque é a Marina Silva e porque ela defende uma causa que reúne preocupações em relação a sustentabilidade. Procurei a coordenação da campanha e ofereci o meu trabalho.

Durante o período de pré-campanha, que termina na próxima semana, a candidata começou a construir seu perfil online. A equipe de nove pessoas que trabalha com Caio Túlio é responsável por parte do conteúdo e pelo monitoramento do site de Marina, além de sua comunidade no Orkut, suas páginas no Facebook, no YouTube e seus álbuns de fotos no Flickr. Eles ainda ficam de olho na participação espontânea dos eleitores: no Orkut, uma busca simples revela centenas de comunidades criadas em apoio à candidata, a maior delas com cerca de 15 mil participantes.

- Acho que a internet vai ter, nesta eleição, um papel mais importante do que teve até agora, por causa das regras menos rígidas do TSE. Mas acho difícil que esse papel seja decisivo. O Brasil tem quase 70 milhões de brasileiros conectados, e o contingente eleitoral é muito maior que isso. De qualquer forma, a gente vai utilizar a internet com uma série de objetivos. Queremos, principalmente, falar com os jovens e essas pessoas que estão conectadas, já que teremos pouco tempo na televisão - explica.

Ele acredita ainda que a rede pode ser uma plataforma para angariar colaboradores e até doações. No site, a sessão "colabore com a Marina Silva" ensina como os voluntários podem compartilhar as informações da candidata nas redes sociais:

- A gente pode usar a internet para aglutinar. Queremos levar a voz da Marina e seu programa de governo às pessoas sempre de uma forma colaborativa, buscando voluntários, participantes e, quem sabe, até recursos.

Marina Silva, ele garante, participa ativamente de todo o processo. Segundo Caio Túlio, ela escreve todos os posts de seu blog, os tweets de sua conta pessoal (@silva_marina) e não permite que ninguém escreva em seu nome. A prática tem permitido uma proximidade antes impensável entre eleitores e candidatos, além de revelar gostos e opiniões prosaicas - e por vezes até engraçadas - dos presidenciáveis.

Mas nem tudo são flores, e a pouca intimidade com as redes sociais já provocou gafes. Marina se envolveu numa polêmica no Twitter no último dia 18, quando retuitou opiniões controversas sobre o escritor José Saramago. Na verdade, a candidata pretendia responder, discordando das tais opiniões. Mas, poucos minutos depois, já havia sido execrada pelos fãs do escritor português, falecido naquele mesmo dia. Essa superexposição e até a certa vulnerabilidade que a internet traz consigo não preocupam Caio Túlio. - Isso faz parte da rede, que é um ambiente vivo, dinâmico, e eu te diria que quase incontrolável - ri o coordenador. - Vamos ter que aprender a lidar com isso.
JOSÉ SERRA

Mobilização e discussão com os eleitores na rede

A trajetória de Sérgio Caruso à frente da campanha digital de José Serra começou há mais de um ano, quando o presidente da Sinc Comunicação Digital foi convidado pelo PSDB para discutir conceitos e ideias sobre o uso da internet nas eleições de 2010. As conversas foram tão boas que, no fim do ano passado, ele assumiu a coordenação da pré-campanha. Apesar da extensa experiência na rede - além de presidir a Sinc, ele é um dos fundadores da OON Networking, primeiro grupo de comunicação digital do Brasil - Caruso afirma que não é geek nem passa muito tempo nas redes sociais. E defende a simplificação dos assuntos relativos à rede:

- Sempre fui um usuário de internet, mas não sou um conhecedor profundo de tecnologia. Obviamente, gosto de gadgets, iPads e afins, mas sempre defendi que a internet tem que ser desmistificada. Sou contra o uso de muitas "gírias" ou linguagem típica do segmento.

Para Caruso, a internet agrega mais uma possibilidade de comunicação e interatividade com os eleitores, mas não vai substituir outros meios.

- Tenho ouvido em uma ou outra conversa por aí que a internet será mais importante que a TV. Isso é uma grande falácia. Essa história de que a internet elegeu o Obama é um mito. Quem elegeu o Obama foi ele próprio, sua história de vida, suas propostas, o fato de vir depois do Bush, enfim... Pela primeira vez, a internet foi usada em todo o seu potencial. Mas daí a dizer que a internet o elegeu, é outra história - defende.

O coordenador da campanha de Serra vê de forma muito natural a utilização dos recursos da rede na campanha. Para ele, a importância da internet nas eleições será diretamente proporcional à sua importância no cotidiano dos brasileiros. Mas é claro que características como a profundidade de informações, a interatividade instantânea e a diversidade de formatos fazem deste um meio extremamente promissor para os aspirantes a presidente:

- Estamos usando a internet, por exemplo, para provocar uma discussão sobre o programa de governo. As pessoas entram, se cadastram e participam de blogs e fóruns sobre mais de 40 temas. Tudo muito transparente. Nesse sentido, a internet acaba oxigenando uma discussão que antes ficava mais restrita.

A mobilização de eleitores e colaboradores na rede também é uma das apostas de Caruso para a campanha. Segundo ele, as iniciativas voluntárias estimulam as pessoas a se manifestar e evidenciam a credibilidade das opiniões.

- É um movimento legítimo, porque as pessoas não são obrigadas a "repetir uma ladainha". Elas têm ideias próprias, e umas estimulam as outras.

Para alcançar seus eleitores, a campanha de José Serra está presente nas principais redes sociais: Orkut, Facebook, Youtube e Flickr, que tem até fotos da infância do candidato. A partir de 6 de julho, outros canais com os internautas serão criados, segundo Caruso. Mas ele faz mistério sobre o teor dos projetos. No Twitter, cerca de 265 mil seguidores acompanham o perfil do ex-governador de São Paulo, que tem conta no site de microblogs há mais de um ano.

Enquanto alguns usuários do Twitter levantam suspeitas de que não é o próprio Serra quem atualiza seu status - ele posta diversas vezes, quase que diariamente - Caruso afirma que o candidato entende mesmo de redes sociais:

- A participação do Serra é muito importante. Ele não é conhecedor de tecnologia e nem precisa ser. Mas ele entende do respeito às pessoas, da discussão na rede e da interação. Essa exposição dos candidatos é fantástica para o processo democrático.

A adequação à linguagem dos internautas é um dos fatores que precisam ser observados, na opinião do coordenador. Apesar do aumento do número de brasileiros conectados, ele insiste que é necessário distinguir o internauta do telespectador.

- É preciso ter um conhecimento profundo de cada ferramenta, para que o internauta seja respeitado e sinta que, de fato, estamos falando com ele. Essa linguagem não é apenas relativa ao texto, mas também envolve fortemente a forma, a parte visual e a usabilidade.
DILMA ROUSSEFF

Descentralização e colaboração na campanha nas redes sociais

Velho conhecido da turma geek, Marcelo Branco diz gostar de desafios. Por isso, participar do primeiro processo político onde a internet pode ser decisiva foi um dos motivos que o atraiu para o comando da campanha online da candidata do PT, Dilma Rousseff. A identificação com o governo Lula e a relação que tem com a candidata, desde que ela, nos anos 90, atuou como secretária de Minas, Energia e Telecomunicações do governo Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, também fizeram diferença na hora de aceitar o convite.

Organizador da Campus Party, um dos principais eventos de cultura digital do país, durante três anos, o gaúcho é ainda um dos fundadores do Fórum Internacional do Software Livre. Sua conhecida militância pela construção colaborativa de conteúdos deve marcar também seu trabalho com a candidata do PT. Segundo Branco, sua estratégia de campanha digital pode ser resumida numa palavra: descentralização.

- Não há como fazer uma campanha política nas redes sociais de forma centralizada, apenas através de marqueteiros e publicitários. A campanha nas redes sociais, pela dimensão que precisa ter, deve ser feita por milhares de pessoas.

Para chegar a esse número, ele desenvolveu algumas estratégias. Uma delas é o trabalho de aglutinação das diversas iniciativas espontâneas de apoio à candidata. Outra é a Caravana Digital, série de encontros por todo o Brasil com colaboradores, blogueiros e twitteiros, onde Branco compartilha suas ideias sobre o uso da internet no processo eleitoral.

- O objetivo é a mobilização. Eu compartilho com eles algumas experiências da campanha, recebo um retorno e juntos descobrimos a melhor forma de fazer. Todos estamos aprendendo. Acho que a internet recupera o sentido do voluntariado numa campanha política e isso ajuda na qualificação da democracia. Milhões de pessoas que não participariam do processo, se não fosse a rede, agora vão ter a chance de participar.

Apesar de todo seu entusiasmo com a rede, o coordenador não acredita que a internet por si só tenha força para mudar os rumos da eleição. Por outro lado, ele crê que a participação mais ativa dos eleitores pode suscitar discussões e transformar a rede num espaço de organização dos conteúdos. Uma espécie de "pré-debate", que deixaria os candidatos mais preparados.

- Esse debate horizontal que vai se dar nas comunidades virtuais pode criar argumentos e conteúdos para o debate offline, onde, de fato, a eleição vai se decidir.

Como os outros principais candidatos, Dilma Rousseff está presente na rede com perfis no Orkut, Facebook, Twitter e YouTube, além de álbuns de fotos no Flickr. No Orkut - mais popular rede social do país - há dezenas de comunidades criadas a favor da candidata, com até 13 mil membros. Mas ela também é alvo de rejeição: o grupo "Dilma Rousseff, NÃO" conta com mais de oito mil integrantes.

Da mesma forma que incentiva os voluntários e colaboradores, a rede também desperta os detratores. A candidata já foi alvo de críticas durante sua pré-campanha digital. Uma das mais emblemáticas aconteceu em abril deste ano, quando Dilma Rousseff cometeu uma série de gafes em vídeos exibidos em seu site. Sobrou até para Marcelo Branco que, na época, precisou conviver com boatos de que seria demitido. Mas ele considera positiva essa convivência mais próxima com os eleitores.

- A internet coloca o candidato na mesma matriz de mídia do eleitor. Assim como ela deixa a empresa de comunicação na mesma matriz do público. É a primeira vez que a humanidade está experimentando uma forma de comunicação onde não há hierarquia no potencial tecnológico do candidato, da empresa de comunicação ou do público - opina Branco, que defende a naturalidade acima de tudo nas campanhas digitais. - É óbvio que na internet não existe superprodução. O diferencial da rede é mostrar o candidato como ele é, como ele acorda, falando algo que ainda não disse em lugar nenhum. A internet precisa ter esse caráter inédito, pouco convencional e, sendo pouco convencional, ela mostra o lado mais humano, que não aparece em TV. E, claro, sendo mais humano, ele será um candidato que pode esquecer um número ou um dado, como todos nós.

FONTE

Ao Vivo