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PESQUISA

Cientistas implantam rastreadores em mariposas para entender movimento migratório

15 agosto 2022 - 15h45Por Olhar Digital

Há muito tempo se pensava que insetos migratórios vão para onde o vento sopra. No entanto, evidências crescentes indicam que eles são realmente grandes navegadores e podem selecionar condições favoráveis para cumprir suas jornadas – é o caso de uma determinada espécie de mariposa.

Em um artigo publicado na Science, pesquisadores demonstram que a borboleta-caveira pode manter um caminho de voo perfeitamente reto. Segundo a pesquisa, essas mariposas são capazes de ajustar sua trajetória para compensar as condições ríspidas de vento.

Pesquisadores implantaram rastreadores em 14 espécimes de borboletas-caveira, um tipo de mariposa, para estudar o processo migratório desses insetos. Imagem: bobycici – Shutterstock

Alguns métodos de estudo já tentaram entender o processo, com a aplicação de observações feitas por radar, análises de processos populacionais e genética ou medição de isótopos nos tecidos (que podem revelar os alimentos e fontes de água dos insetos e fornecer informações sobre seus locais de origem).

Como os insetos individuais se comportam durante a migração (e os caminhos que tomam) tem sido relativamente difícil de estudar, principalmente devido a seus tamanhos e à grande quantidade de populações. Mas os recentes avanços na tecnologia de rastreamento ajudaram a produzir transmissores pequenos o suficiente para serem embutidos em insetos maiores.

Esses transmissores pesam menos de um grama e podem ser ligados a insetos individuais, permitindo aos cientistas rastreá-los diretamente à medida que migram e aprender o que esse processo envolve.

“Nosso estudo se concentrou no Acherontia atropos, uma mariposa enigmática encontrada na Europa e na África. A espécie é bem conhecida pela incomum marcação semelhante a um crânio em seu tórax. Quando perturbado, ele também tem o hábito de guinchar e piscar seu abdômen amarelo-brilhante”, disseram os autores em comunicado publicado no site The Conversation.

Segundo o comunicado, esse tipo de mariposa se alimenta do mel que rouba de abelhas, entrando nas colmeias e perfurando os favos com seu probóscide robusto (um apêndice alongado que se localiza na cabeça de algumas espécies de animais servindo como tubo de alimentação).

Mariposas partem do continente europeu no outono em direção ao norte da África

Durante a primavera na Europa (nos meses de maio e junho), mariposas adultas tendem a aparecer no continente, de onde partem no outono (agosto a outubro) – provavelmente indo para o Mediterrâneo ou o norte da África, e talvez até o sul do Saara.

“Acredita-se que a espécie é incapaz de passar o inverno ao norte dos Alpes, então sua migração provavelmente é impulsionada pela baixa temperatura e disponibilidade de recursos”, diz o estudo, que rastreou 14 espécimes por até quatro horas cada – um período de tempo suficiente para ser considerado voo migratório.

A equipe de pesquisa criou as lagartas em um laboratório e soltou os animais adultos em Konstanz, na Alemanha. Os insetos foram seguidos por uma aeronave leve por até 80 quilômetros nos Alpes. Imagem: Christian Ziegler – Instituto Max Planck de Comportamento Animal

“Nós equipamos cada indivíduo com um pequeno transmissor de rádio, pesando menos de 0,3g, antes de liberá-los. Um avião Cessna com antenas receptoras voou atrás deles enquanto migravam, detectando sua localização precisa a cada cinco a 15 minutos”, descreveu Myles Menz, professor de Zoologia e Ecologia da Universidade James Cook, na Austrália. “Este método nos deu uma visão aprofundada do comportamento de voo deles”.

De acordo com o coautor Martin Wikelski, diretor do Departamento de Migração do Instituto Max Planck de Comportamento Animal e professor honorário da Universidade de Konstanz, na Alemanha, explica que o rastreamento de rádio tem sido usado com sucesso para investigar a migração de alguns insetos voadores diurnos, como a borboleta-monarca (Danaus plexippus) e a libélula darner verde (Anax junius). “No entanto, nunca foi usado em insetos noturnos na natureza nem nessa dimensão. Na verdade, nossa pesquisa marca a maior distância que qualquer inseto já foi continuamente rastreado no campo”.

Mecanismos para lidar com diferentes condições do vento

Então, o que as mariposas fazem na migração? “Para nossa surpresa, descobrimos que elas voavam por caminhos muito retos, efetivamente pegando um ‘atalho’ para o seu destino. Algumas das faixas mais longas atingiram quase 90 km durante um período de quatro horas”, revelaram os pesquisadores.

As mariposas também mostraram estratégias distintas para lidar com diferentes condições de vento. “Quando havia ventos contrários favoráveis – na mesma direção dos insetos – eles voavam para baixo do fluxo e eram impulsionados em direção ao seu destino, ou compensavam sua direção ligeiramente para manter o controle de sua trajetória”.

Já em condições desfavoráveis, como ventos contrários (vindos da frente) e ventos cruzados (de lado), as mariposas voavam para o chão e diretamente para os ventos contrários, segundo os cientistas, ajustando sua trajetória para evitar a deriva fora do curso. “Elas também aumentaram sua velocidade para manter o controle”.

Essa habilidade de permanecer no curso, mesmo em condições desfavoráveis, indica que a borboleta-caveira tem mecanismos de bússola aprimorados. “Mostramos que os insetos conseguem ser navegadores experientes, em comparação com os pássaros, e não estão no capricho dos ventos como pensávamos. Esta é uma descoberta importante na ciência da migração”, disseram.

Ainda há muito a descobrir sobre como os insetos migram e para onde vão. Segundo Menz, Wikelski e os demais autores da pesquisa, o próximo passo será entender exatamente quais mecanismos essas mariposas usam para permanecer em seu caminho. “Elas estão seguindo o campo magnético da Terra? Ou talvez confiam fortemente em pistas visuais? Quanto mais entendemos, mais perto estamos de prever os fenômenos da migração de insetos”. 

Os pesquisadores afirmam que isso teria amplas implicações – desde o manejo de espécies ameaçadas e insetos com benefícios agrícolas até ter melhor controle sobre pragas.